14.3.11

o tempo de cada um

Nesse fim de semana encontrei uma amiga que entrou num grupo de corrida há dois meses. Ela está toda empolgada, mas se lamentou por ainda não conseguir correr. Sedentária até então, ela faz treinos alternando corrida e caminhada, mas se sente frustrada por não conseguir correr mais de 1km continuamente. Falei pra ela que cada um tem seu ritmo e que se ela persistir, um dia ela vai correr quantos km quiser. Como se a vida fosse tabelada, ela acha que já está "no tempo de correr" e se frustra por não conseguir. Mudamos de assunto, mas voltei pra casa pensando nessa história.

Lembrei que há bem pouco tempo também fui vítima dessas "tabelas" da vida. Meu sobrinho de um ano e oito meses estava "no tempo de falar", mas ainda tinha um vocabulário muito restrito e não elaborava frases. Fiquei preocupada com medo de que houvesse alguma coisa errada com ele, mas a pediatra falou que ele estava na faixa da normalidade e que logo logo ele estaria falando. O único conselho que ela deu foi que  devíamos estimulá-lo a verbalizar seus desejos, pois se atendêssemos de imediato todos os seus pedidos através de gestos e sons, ele não sentiria tão cedo a necessidade de falar.  E foi exatamente assim, bastou sermos um pouco menos compreensivos com as suas mímicas, que o danado começou a falar tudo.

Da história do meu sobrinho, tiro duas lições que aplico ao caso da minha amiga: a primeira é que a vida não é feita de uma tabela universal - cada pessoa tem o seu próprio tempo. Não adianta compararmos nossas experiências com as de outras pessoas; temos históricos e corpos diferentes. A segunda lição é que não devemos cair na armadilha da (auto) comiseração como desculpa para não evoluirmos. É difícil fingir não entender aquela mãozinha gorda apontando para um pacote de jujubas, mais fácil seria pensar: "Oh, ele é um bebê, coitado! vou dar logo o pacote antes que ele chore". Assim também é bem mais cômodo para o nosso ego pensar "É mais difícil pra mim porque sempre fui sedentária" e não expandir o seu limite. Cada um tem o seu tempo, mas é preciso sair da sua zona de conforto para que ele não demore a acontecer. Seja pra falar ou pra correr.

ps. Minha mãe recebeu várias "receitas" pra eu começar a falar: desde colocar um pinto pra piar na minha boca (!!!!) até me dar água de chocalho pra beber. Eu tinha mais de dois anos e todos davam certo que eu era muda. Pra compensar, na corrida eu fui um pouco mais rápida e corri 10km quando completei um mês de treino.