25.4.11

vício é vício.

Todo mundo que corre mais de trinta minutos regularmente sabe que correr vicia, né? Já deu em todas as revistas sobre corrida: É um vício ótimo, te deixa de bom humor, dá mais gás para as outras atividades do dia, ajuda a manter o peso, etc, etc, etc. Mas como todo vício,  a sensação é tão boa que você realmente tem crise de abstinência quando não corre. Perder um dia de corrida quando tô na pilha é tão frustrante pra mim quanto.... sei lá... pensem nas coisas que mais irritam vocês. Falando assim parece que sou uma louca compulsiva que não perde um treino por nada na vida, mas sou exatamente o contrário. Eu sou uma farrapeira que deixa de correr por qualquer coisa que me apeteça no momento. A corrida nunca vai ser uma obrigação na minha vida. FATO. Mas o que me irrita mesmo e me tira do sério é faltar um treino por motivos alheios à minha vontade. Pode ser uma chuva que não cessa ou uma lesão inconveniente.

Fazer parar de chover não faz parte do rol dos meus super poderes, mas até bem pouco tempo atrás eu achava que lesão nenhuma me faria parar de correr enquanto eu tivesse uma caixa de nimesulida na minha farmácia. Minha história de "amor" com esse antiinflamatório começou há mais de cinco anos quando eu ainda nem pensava em correr. Na época fazia kung fu e fui ao ortopedista reclamando de dores musculares na canela, nem lembro mais o diagnóstico, mas nunca esqueci como aquele simples remédio me fez voltar em poucos dias, novinha em folha, para os katis. Em 2008 comecei a correr e logo nos primeiros meses tive canelite. Sofria pra fazer coisas simples do dia a dia, como descer as escadas do meu prédio. Não demorou muito pra eu lembrar do tal remedinho milagroso e dessa vez tomar por conta própria e sem parar de correr. Quando você começa a correr evolui muito rápido e eu estava curtindo me tornar bem mais rápida a cada treino. Parar estava fora dos meus planos. Com o tempo e menos de uma cartela eu já estava sem dores e treinando normalmente. Achei o máximo.

Por sorte eu passei um bom tempo sem ter maiores problemas físicos e continuei treinando normalmente sem precisar apelar para a nimesulida até o segundo semestre de 2010. Depois de quase seis meses sem correr, eu queria voltar do ponto de onde parti e pra isso exigia do meu corpo um condicionamento que ele havia perdido. Resultado: forcei demais e me machuquei. Eu estava tão determinada a voltar a correr que nem pensei duas vezes: comprei uma caixa de nimesulida e mandei ver nos treinos. Tomei metade dos comprimidos e a dor não diminuia, na segunda metade reduzi o ritmo dos treinos e mesmo assim a dor não passava. Pior: ela aumentou. O que no começo só incomodava no primeiro quilômetro de corrida passou a incomodar durante toda a corrida e depois durante o dia todo, estivesse em pé, deitada ou sentada. Quando vi que a dor só piorava tentei de tudo - massagem, gelo, biofenac spray - menos parar de correr.

A lesão completou um mês, eu já tomava a segunda caixa de nimesulida e mesmo com todos os cuidados, eu não conseguia correr nem 4km em baixa velocidade. Uma dor que no início se localizava apenas na panturrilha já começava a ter reflexos até o quadril. Escrevendo sobre isso agora eu fico me perguntando: "Onde eu estava com a cabeça? De que adiantava correr todos os dias se eu não corria tanto quanto eu queria e não conseguia extrair nenhum prazer disso?" Eu tava mesmo uma drogadinha em fim de carreira. A minha sorte é que um belo dia minha irmã descobriu que eu tomava há mais de um mês um remédio que não devia ser tomado nem por mais de sete dias, muito menos sem prescrição médica. Foi ela que me levou ao ortopedista que me proibiu de fazer qualquer (!!!) atividade física durante um mês e passou intermináveis sessões de fisioterapia. Saí do consultório arrasada, frustrada e com raiva por que meu corpo tinha me deixado na mão.

Eu tinha medo de perder o hábito da corrida, medo de quando passasse o mês de repouso eu não tivesse mais vontade de voltar a correr. Era só isso que eu pensava. Eu já tinha deixado de correr uma vez e não queria que isso acontecesse de novo. Quando o médico me liberou pra fazer atividade física e eu pude enfim voltar pro asfalto foi um daqueles momentos de prazer indescritíveis. Eu passei tanto tempo insistindo em uma corrida sofrida e dopada que já não lembrava de como era maravilhoso correr sem sentir dor. Depois de todo esse sofrimento aprendi que, assim como as chuvas fortes, lesões devem mesmo continuar na categoria de motivos alheios à minha vontade que me fazem não treinar. E fica a dica: não tomem remédio por conta própria, procurem um ortopedista quando sentirem dor!! Pelo bem do nosso vício !!