20.1.09

[A princesa do Rosarinho] [Parte 1]

Desde que me mudei a programação do meu fim de semana se divide em compra de eletrodomésticos, organização do apartamento e lavagem de roupa suja que parece não acabar nunca. Neste fim de semana fui comprar minha geladeira - precinho bom e a entrega quase imediata: segunda ou terça. Expliquei para o vendedor que eu precisava saber o dia exato, porque morava só patati patatá. Ele, simpático, me deu o número da logística pra eu poder fazer a minha logística no trabalho. Mas como nessa novela não pode faltar drama, o telefone que ele me deu não atendia nunca.

Eu liguei desesperadamente no sábado e segunda de manhã, entre o banho e o café, o café e escovar os dentes, no elevador, na calçada, no caminho pro trabalho, no elevador do trabalho, na porta do trabalho...e como em toda novela brega, alguém do outro lado da linha fala "Walmart, fulaninha, bom dia!". Bom dia?! Bom dia?! Eu já tinha gastado toda a minha cota de estress diário com essas ligações sem sucesso e não tinha nem uma esperança de ter um dia agradável. Aliás, toda cota não, porque a cereja do bolo foi quando a pessoa confirmou que minha geladeira seria entregue naquele dia mesmo. Por um lado achei ótimo a eficiência da entrega quase-imediata, mas por outro, de nada adiantaria, pois sem eu estar lá, minha geladeira voltaria ao limbo do depósito e teríamos mais uma cena de estress, raiva, desespero e lágrimas.

Pausa para os comerciais. Todos no trabalho ficam com pena da minha situação e buscam uma solução enquanto vasculho no Google o telefone da portaria do meu prédio. De repente surge a possibilidade do marido de uma colega do trabalho passar na minha portaria e explicar o meu drama para que o porteiro tenha piedade de mim e receba minha geladeira com amor e carinho. Todos vibram e aguardam ansiosamente o desfecho desse bloco. O telefone toca e ele diz que tá tudo certo. Novela boa é assim, minha gente, a mocinha sofre o tempo todo, mas de vez em quando eles dão uma colher de chá.

Consegui trabalhar tranquila, mas a medida que o tempo passava uma dúvida se apoderava de mim: como diabo eu ia levar da garagem até a cozinha do apartamento essa geladeira? Eu odeio depender dos outros. Odeio depender da boa vontade de desconhecidos. E dos conhecidos também. Se eu tivesse dinheiro contrataria duas pessoas para fazer esse serviço e não se pensaria mais nisso. Mas como a situação é outra, eu esperei terminar o expediente do zelador do prédio antigo, vesti o meu melhor sorriso e enquanto o pobre penteava os cabelos molhados, eu pedi um favorzinho que não custaria nem dez minutos do seu tempo. Que ódio de mim....

Enfim sós, minha geladeira e eu. Quase um final feliz se eu não tivesse medo de ligá-la na tomada. Mais uma vez os desconhecidos, o sorriso infalível, a mendicância que nunca falha. Meu porteiro sorri de volta e explica que não é recomendado ligar a geladeira naquele momento, "melhor amanhã de manhã pra ela ter tempo de se recuperar do estress sofrido do depósito até aqui". Eu entendi perfeitamente e quase pedi pra ser desligada também. Não é fácil ser protagonista da sua própria vida.