24.9.09

Meia do Rio - Parte I

Quando pensava em escrever sobre a Meia Maratona, a primeira frase que me vinha à cabeça era “The Loneliness of the long distance runner”. Mas como assim, Aline? Mais de 17.000 pessoas correndo juntas e você vem falar de loneliness? Sim, foram os 21km mais solitários da minha vida. Um momento único e exclusivamente meu. Daí a dificuldade de colocar em palavras qualquer coisa que se aproxime do que representou pra mim esse dia. No entanto, depois de tantos meses de expectativa gerada, sinto-me na obrigação de dar um desfecho para essa novela. Tento, tento, tento e nada do que eu esboço traduz o que eu quero dizer. Eu preciso contar para cada pessoa que fez parte da minha preparação seja como observador, amigo, ou curioso como foi correr 21,09km no dia 06 de setembro.

Talvez a corrida não seja assim tão mais solitária do que uma partida de futebol, por exemplo. É só a solidão inerente à vida de cada um, mesmo quando estamos juntos. Na concentração para a largada estava eu no meio das 60 pessoas que foram de Recife até o Rio com o mesmo propósito de correr os 21 km da Meia Maratona. A maioria destas pessoas alugou apartamento em grupos de cinco pessoas [no Leblon, claro!], foram juntas para o “grande dia” e provavelmente correram juntas. Aí vem eu, que fiquei em Copacabana, com alguém que conheci no carnaval desse ano e que não ia correr, mas que tomou aquela cerveja comigo na véspera da corrida para desopilar. Na manhã do “grande dia” era eu sozinha em Copacabana tentando encontrar uma forma de chegar à São Conrado sem gastar rios de dinheiro em táxi, sem chegar atrasada para a largada e sem pegar o ônibus errado.

Acordei cedo, fui tomar café na esquina e encontrei algumas pessoas com cara de quem “vou pra Meia”. Para resolver meu problema, abordei algumas delas com aquele papo “Tu vai como pra São Conrado?” Em vão, todo mundo que estava na padaria já tinha seu táxi com lotação esgotada. Paguei meu café e me dirigi para a estação de metrô para me arriscar no ônibus que disseram ser a melhor opção para chegar ao lugar da largada. Lá vi outras pessoas vestidas com roupas de corrida e resolvi tentar pela ultima vez não me perder sozinha por esse mundo/cidade de meu Deus. Não é isso que a gente vem tentando fazer durante todos esses anos? Tive mais sorte e encontrei um nativo que me garantiu saber como chegar lá; grudei nele e respirei aliviada.

O “meu” nativo seguiu em direção a um ponto de ônibus e de lá pegamos uma van cujo cobrador nos garantiu que nos deixaria a menos de 100 metros da largada. Foi só quando já estávamos sentados que descobrimos que iríamos dar um passeio pela Rocinha antes de chegar ao nosso destino final. Senti uma pontada de satisfação ao saber que a minha história da XIV meia maratona do Rio teria um enredo mais emocionante do que a daqueles que simplesmente desembolsaram uma grana para pagar um táxi tranqüilo. Quem disse que eu quero tranqüilidade? Eu queria era subir um morro, conhecer a favela tão falada e descobrir que ela é um centro urbano como outro qualquer com suas ruas, comércios, casas e bares. Queria era perder um preconceito antes de correr, ver as pessoas saindo em plena luz do dia bêbadas e felizes das suas festas e sorrir feliz também. Depois de subir e descer o morro me despedi do meu nativo e fui para o lugar previamente marcado pelo meu grupo de corrida. A minha parceira de treinos desistiu uma semana antes de participar a corrida, então meu único motivo para estar com aquelas pessoas era ter um registro fotográfico da minha primeira meia maratona. Saí em algumas fotos, me alonguei e fui para a linha da largada.