21.4.12

Pina [2011]


 Ah! como a civilização é idiota! Para que termos um corpo, se somos obrigados a mantê-lo encerrado em uma caixa, como se fosse um violino raro, muito raro?
Katherine Mansfield 
A lembrança desse trecho do conto "Bliss" - um dos meus preferidos - veio logo nos primeiros minutos do filme. Pra mim era como se Pina tivesse tirado aqueles bailarinos de suas caixas e tal qual um violino ela os afinara para que fizessem arte com este instrumento precioso que é o corpo.  A sensação que tive é que Pina buscava libertar os corpos (e a mente) dos seus bailarinos para que estes pudessem desenvolver sua própria linguagem. Fora de um padrão rígido em que bailarinas são esquálidas e tem data de vencimento, a diversidade se torna um trunfo. O subtítulo do poster "dance,dance, otherwise we are lost" me faz pensar na minha vida, cujo subtítulo bem que poderia ser "move, move, otherwise I am lost". E obviamente, cogitei entrar numa aula de balé para adultos. Sei que não há tempo para mais uma atividade nos meus dias, mas a ideia de explorar mais uma possibilidade do corpo é que fascina. Não apenas como invólucro dotado de valor estético, mas como instrumento de expressão quando as palavras já não são suficientes. O filme é lindo e não é preciso ser "entendido"de dança para apreciá-lo, basta confiar e se permitir.


Quando terminei de ver o filme, completamente fascinada pelo trabalho de Pina - que até então eu desconhecia - e por ela mesma vista pelos olhos dos seus bailarinos, me veio a mente uma ode de Ricardo Reis.
Para ser grande, sê inteiro: nada
Teu exagera ou exclui. 
Sê todo em cada coisa.
Põe quanto és
No mínimo que fazes.
Assim em cada lago a lua toda
Brilha, porque alta vive.
Fernando Pessoa