17.4.12

Bailarinas do Asfalto



 Li esse texto no blog Corre Paula e me senti super lisonjeada, afinal, é uma linda homenagem a todas as corredoras amadoras. Apesar de adorarmos termos todas as tecnologias de relógios, GPS e frequencímetros, ainda nos importamos muito mais se eles vão combinar com nosso tênis do que de fato nos ajudar a bater recordes pessoais. A verdade é que as mulheres realmente sabem se divertir. Temos nosso lado competitivo, claro, mas o lado da alegria sempre fala mais alto. Muito orgulho de ser mulher e corredora. Valeu, Zé Lúcio!



Suponho que as impressões masculinas sobre as corredoras devam ser muito diferentes uma das outras. As minhas? Não tem qualquer embasamento científico (embora as informações que você lerá nesta edição, da qual grande parte é dedicada a elas, tragam resultados de pesquisas e conclusões médicas, algumas surpreendentes). Portanto, prepare-se: daqui até o fim deste Largada, não faltarão achismos. Alguns óbvios que até podem soar baratos. O lindo balé das corredoras, por exemplo. Enquanto nós pisamos forte, respiração controlada marcando o ritmo, o passo militar, elas flutuam - a vontade era dizer que o correr feminino é quase flanar, tal a leveza e aparente (só aparente!) descomprometimento, mas poderia pegar mal...
Por que elas parecem sempre estarem se divertindo mais do que nós? Do que adianta sermos mais fortes, mais velozes - isso de maneira geral, por favor, conheço muitas meninas que põem pra comer poeira sem sequer ficarem ofegantes... - se elas sorriem mais, o arfar é mais harmonioso, até suas passadas são mais carinhosas com o asfalto? Soou cantada coletiva? Mulheres são assim, provocam reações dessas, o que se há de fazer? 
Outro aspecto da personalidade feminina que, mais do que alguma perplexidade, desperta alguma inveja, confesso, tem como palco as provas. Deixemos a elite de lado, que ali a conversa é outra, e mantenhamos o olhar nas amadoras. Quanto ao tempo, é aceitável dividir corredores em dois grupos: os eternos insatisfeitos e os sempre felizes. Garotas, para mim, estão sempre no segundo grupo. Contentes. Satisfeitas. Contagiosamente felizes. Na última Corrida do Sol, por exemplo, deixei de baixar uma casa nos minutos por meros 15 segundos. Foi um bom tempo, mas uma pontinha de frustração insistia em fustigar. "Por que diminuí o ritmo em tal quilômetro? Custava acelerar um pouquinho mais naquela descida?"- perguntas que me martelavam a cabeça. Foi quando me vi caminhando num mar de sorrisos corados, espontâneos, vindos do fundo da alma. A grande maioria de mulheres, muitas delas certamente sem relógio, frequencímetro, GPS ou outra "algema de performance". Estavam esfuziantes, quase que em um transe de plenitude, apenas por terem corrido, saírem de um ponto e se esforçar para chegar ao outro. Para que falar de corrida, se correr, mais do que verbo, é atitude? Uma lição para aprender e guardar.
Nesta O2 explicitamente dedicada às mulheres (não que as outras onze do ano não sejam), mais do que uma homenagem, um pedido em nome de corredores de toda e qualquer distância, terreno, raça e credo: bailarinas, continuem povoando asfalto, mente e corações com seu espetáculo mágico. A corrida seria cinza sem vocês.
Corra!
Zé Lúcio Cardim
ze.lucio@esferabr.com.br