13.3.12

De quem é a rua?

É uma alegria e uma tristeza escrever um post sobre a falta de espaço para corredores (e ciclistas) nas nossas cidades e especificamente em Teresina. A ausência de parques com pistas adequadas, ruas que privilegiam apenas os automóveis, leis de trânsito que não são efetivamente cumpridas, a falta de educação e respeito ao próximo, são apenas alguns dos problemas enfrentados diariamente por quem se aventura a correr nas ruas.

Apesar das adversidades, reconheço como um avanço estar falando sobre ciclistas, pedestres e corredores de rua. No Brasil sempre imperou uma cultura de que a rua é dos carros e, como observa Roberto DaMatta em seu livro "Fé em Deus e Pé na Tábua", o problema começa antes mesmo de aprendermos a dirigir: Os outros são invisíveis no Brasil. Você não é treinado em casa nem nas escolas para ver o outro como colega, como um sujeito que tem os mesmos direitos de usufruir o espaço de todos. Para nós, é o contrário: o espaço de todos pertence a quem ocupar este espaço primeiro, com mais agressividade. Se os motoristas vêem os próprios outros motoristas como inimigos a serem vencidos nas vias da cidade, como então irão respeitar ciclistas e pedestres? Assumo aqui também a parcela de culpa da minha classe profissional: urbanistas ignoram todas as regras de mobilidade urbana e projetam ruas sem as mínimas condições para atender o preceito básico de ir e vir livremente. Nós aprendemos muitas coisas na faculdade e faríamos as melhores ruas e avenidas do mundo, mas nosso conhecimento esbarra nos interesses do poder executivo. E todos nós sabemos para quem nossos governantes governam:  não é para o trabalhador que pega ônibus todo dia, se desloca a pé ou cruza a cidade de bicicleta pra chegar ao seu trabalho. Pensando bem, não é mesmo de se estranhar que os automóveis se achem os donos da rua.

O antropólogo Roberto DaMatta ainda constatou em suas pesquisas que vivemos num país em que obedecer regras é um sintoma de inferioridade e quem segue as leis de trânsito é considerado babaca. E é aí que a coisa começa a ficar especialmente perigosa. Motoristas não respeitam o sinal de trânsito fechado, a faixa de pedestre, o limite de velocidade e estacionam em lugares não permitidos. Afinal, o pior que pode lhe acontecer é levar uma multa ou perder alguns pontos na carteira. Os outros não existem. E nos fins de semana os outros tornam-se ainda mais invisíveis. Confiantes na falta de bafômetro, no twitter que alerta sobre blitz pela cidade, ou simplesmente na sorte, motoristas arriscam as suas vidas e as de inocentes ao dirigirem bêbados pela madrugada voltando de suas noitadas. Ruth de Aquino afirma, em sua coluna na revista Época, que a culpa desta imprudência no trânsito é da lentidão na Justiça, da omissão do Executivo e da incompetência no Congresso. E eu concordo com ela.

Em Teresina, no último domingo, por volta de 6 horas da manhã, um garoto de 19 anos perdeu o controle do carro que dirigia, subiu a calçada e atropelou Maria Olanda, que treinava com o seu grupo de corrida. A corredora percebeu o carro em alta velocidade indo em sua direção e tentou escapar, mas foi atingida e teve cortes profundos na coxa. Os amigos que corriam com ela a socorreram. O garoto não prestou socorro nem fugiu do local do crime,  após o choque ele apenas dormiu no volante. Talvez cansado da bebedeira e da festa. Impossível afirmar com certeza, não havia bafômetro disponível na cidade. O exame clínico, realizado mais de quatro horas depois do acidente, identificou no rapaz que dirigia sem habilitação sinais de ingestão de álcool. Provavelmente não haverá nenhuma punição para o garoto. A única parte punida nessa história é Maria Olanda e seus companheiros de corrida que, traumatizados pelo susto, não se sentem mais seguros para correr nas ruas nos fins de semana.

Revoltados, eles e muitos outros corredores (e me incluo aqui) resolveram ir à luta por um mínimo de espaço nas vias da cidade. Vem daí a minha alegria de escrever esse post. Finalmente estamos acordando do estado de apatia e passividade que tudo aceita e nada questiona. Quanto às soluções, não acredito numa política urbana de "os incomodados que se retirem" que segrega cicilistas em ciclovias distantes e confina corredores em parques sem estrutura, mas sim numa mudança de mentalidade da nossa sociedade que considera a igualdade menos importante do que a liberdade. É querer demais?